sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Segundo John Wick D&D não é RPG... Tá de "Brincation" né?

Gary Gygax ficou chocado com essa...
Todo mundo aí conhece o John Wick? Ele é autor de uns jogos bem legais, alguns que eu gosto muito, inclusive, como Shotgun Diaries, Cats e Blood and Honor. Mas, além de fazer jogos legais, o John Wick quer falar sobre jogos, ou melhor, evangelizar sobre os jogos que ele gosta, muitas vezes em detrimento de jogos que ele não gosta (ou não entende, aparentemente).

Recentemente ele publicou em seu site/blog um artigo (estou linkando ele ao lado para vocês darem uma olhada, embora eu não quisesse dar IBOPE a esse tipo de coisa) em que ele fala sobre o que é RPG para ele, comparando jogos que não fazem o que ele quer, "contar histórias", com Board Games, inclusive falando que D&D (mas isso não é importante, poderia ser qualquer outro RPG que não atenda à demanda específica dele) não é RPG. Ora, vejam só. Se o D&D, que criou o termo RPG, que começou toda essa indústria, não é RPG, o que é?

Para ele, sé os RPGs que focam em contar um história acima de qualquer outra coisa! Se o jogo tiver regras de combate que detalhem o dano de uma arma em relação a outra, ele é um Board Game, já que isso, para ele, não tem a menor importância para contar histórias. A única coisa que importa é o que vai acontecer e não como. Se o jogo não for focado para contar um tipo de história específico (tipo esses jogos que são sobre história de cachorros com pneumonia que devem achar o osso dourado, especificamente) ele não é um RPG, e sim um Board Game.

Além disso, segundo ele, você pode jogar alguns desses RPGs, incluindo todas as edições de D&D (exceto a mais nova) só com as regras não se importando com qualquer história ou narrativa (sério!? ele leu algum livro de D&D ou já jogou esse jogo alguma vez). Quer dizer, então, que não importa se há uma história, uma razão pro traz de uma aventura, se os personagens devem escolher entre salvar alguma pessoa em perigo ou buscar os tesouros que pairam sobre sua ambição. Não importa que os jogadores interagem entre si, interpretam personalidades diversas, alteram o mundo imaginário ao redor deles transformando o jogo. O que importa, aparentemente, é que se o jogo tem regras de combate com um certo nível de detalhe, então isso só pode querer dizer que o combate é a única coisa que importa no jogo.

Ao meu ver, isso é ser limitado e reducionista demais. Diversos RPGs oferecem experiências de jogo igualmente diversas. Até porque pessoas diferentes querem coisas diferentes dos RPGs. Algumas pessoas querem um mecânica totalmente focada para contar um tipo de história específica, sendo que os detalhes de como aquela história aconteceu ou quanto de dano uma caneca dá em relação a uma espada não importa. Mas para outras, como a espada acertou o inimigo e o estrago que ela fez é importante. Vocês já leram um conto do Conan? Cada movimento, investida, esquiva e outros detalhes de uma luta são narrados com detalhe e emoção. Não importo só que ele venceu uma luta, mas como ele venceu essa luta. Para algumas pessoas e histórias, esse detalhes são sim importantes.

O conceito de RPG é algo difícil de se definir perfeitamente. Ele é um jogo que permite que os participantes tenham uma experiência ficcional com auxílio de regras. Alguns jogos focam em contar uma história específica em detrimento a vivenciar um personagem e ver como ele viveria e agiria em um mundo sobre diversas situações. Outros jogos fazem o contrário, focam em vivenciar e experimentar um mundo através de exploração do mesmo, sendo a "história" apenas uma consequência dessa exploração. Isso quer dizer que um deles é RPG e o outro não? Sinceramente, ambos proporcionam uma experiência diferente de qualquer outro jogo, com liberdade para criar histórias ainda que por meios diferentes, criando uma dinâmica de uma conversa narrativa que vai se modificando a cada instante. A única diferença é o foco de cada uma. Um vai de cima para baixo e a outra de baixo para cima.

No final, limitar o RPG a ser apenas um coisa específica em detrimento a todas as outras experiências de jogo possíveis é uma atitude segregadora e bastante prejudicial ao hobby que já é pequeno. RPG é um jogo em que as pessoas participam tenda a experiência de fazer parte de um cenário fictício, interagindo e modificando-o em conjunto. O resto é detalhe. Você pode usar mais ou menso regras com mais ou menos detalhes em cada aspecto dependendo do seu foco no jogo. E porque elas fazem isso? Primeiro porque é divertido, é um escapismo sim, e porque isso permite que as pessoas vivam outras experiências que não viveriam sem ele, e essas experiências são incertas, surpreendentes. As regras de um jogo são apenas maneiras diferentes de se fazer isso para proporcionar experiências diferentes. Elas não são a experiência completa. RPGs, por sua natureza, não são jogos completos, eles precisam de pessoas para funcionar, e cada pessoas funciona de maneira diferente.

Enfim, eu sou só um jogador de RPG e não o "Magnânimo" John Wick, mas eu não estou sozinho nessa opinião. É só dar uma busca no google e vocês veram diversas outras pessoas (algumas com um credencial muito melhor do que o meu) falando tudo isso, talvez de um jeito muito melhor. Besnoit Poire tem uma postagem no Facebook em que ele explica tintim por tintim porque esse artigo do John Wick é uma furada e bastante perigoso. Rob Conley, do Batt in the Attic, tem outra em que ele explica uma visão mais holistica sobre RPG que não é preconceituosa, elitista e limitada como a apresentada pelo artigo discutido.

E vocês? Tem alguma opinião sobre o assunto? Será que se um RPG se importar em como um golpe de espada é diferente de uma canecada, ou de uma bola de fogo ele deixa de ser um RPG para se tornar um Board Game?

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