sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Caverna do Dragão - De Volta aos Reinos

Acho que todo jogador de RPG com mais de 20 anos conhece e se amarra no desenho Caverna do Dragão (que tem o título original de Dungeons & Dragons). Aquele em que seis jovens entram em um brinquedo de parque de diversões, uma espécie de trem fantasma misturado com montanha russa e com temática de fantasia medieval, e são teletransportados para um verdadeiro mundo fantástico. Lá, eles são recebidos por um senhor baixinho, chamado de Mestre dos Magos (no original, Dungeon Master), que se compromete a ajudá-los a achar o caminho para casa (o mundo deles). Só que, nessa busca, os jovens são testados de diversas maneiras, e estão sempre tendo que fazer escolhas difíceis, como voltar para casa ou salvar alguém indefeso do ataque de alguma criatura bizarra ou situação sinistra.

O desenho é basicamente sobre um grupo de jovens jogando RPG. Cada um tem uma classe de personagem (Ranger, Cavaleiro, Ladra, Mago, Bárbaro e Acrobata); eles são, ao mesmo tempo, aventureiros e pessoas do nosso mundo; eles são levados a aventuras e missões por um mestre, o Mestre dos Magos, Dungeon Master; precisam fazer escolhas difíceis como as que aparecem nas aventuras; resolvem seus problemas de forma criativa, nem sempre (ou quase nunca) de forma violenta; superam desafios como monstros, armadilhas, charadas, puzzles; exploram ruínas, florestas, masmorra, minas, castelos. Enfim, é uma representação perfeita de um jogo de RPG.

Sendo assim, nada mais natural do que ter um RPG baseado no desenho, certo? Bem, mas como seria um RPG de um desenho baseado em um RPG? Complicado, não? Bem, houve um suplemento para a terceira edição de D&D, chamado Animated Series Handbook, com a adaptação dos personagens do desenho para as regras dessa edição. Mas, sinceramente, eu não acho que o clima e estilo do desenho consegue ser reproduzido nesta edição específica. Os personagens, que eram jovens e crianças inexperientes (mas com grande potencial) são reproduzidos como aventureiros de nível alto, com talentos, base de ataque e outras coisas que não representam bem os personagens deles no desenho. O Presto, por exemplo, era um mago normal, com tantas magias por dia, como mísseis mágicos, bola de fogo e outras coisas. O clima do jogo é muito combativo, estratégico e focado muito mais em combate do que solução criativa para os problemas, como no desenho. Talvez o cenário funcionasse um pouco melhor nas edições mais antigas, com menos detalhes na ficha, talentos e poderes extraordinários, mas mesmo assim acabariam encaixando os personagens como aventureiros comuns dos mundos de fantasia e, cá entre nós, eles não são isso. Há, ainda, adaptações do desenho para diversos outros sistemas. Confesso que não li todas e nem conheço todos os sistemas, mas os que eu conheço, não senti que reproduzisse fielmente o clima do Caverna do Dragão.

Por isso, tenho a ideia de fazer um sistema próprio para o jogo, que tentasse pagar as coisas que acho importante do desenho e utilizá-las na mecânica, como as características dos personagens, seus talentos pessoais, personalidade, ambições, medos, fraquezas. Um sistema aberto, que dê chances aos jogadores de usarem a criatividade para superar desafios, da mesma forma que os personagens dos desenhos. Ao mesmo tempo quero manter alguma coisa do D&D, já que ele foi a inspiração do desenho e vejo que os atributos são uma representação bem ampla e versátil dos personagens. Tenho vontade de inserir diversos elementos de jogos distintos que sinto se encaixarem bem no jogo, como uma evolução parecida com a que ocorre em Shotgun Diaries, através de diários, em que só evolui quem escreve e participa da história. Enfim, tentar fazer um sistema simples, flexível, que incentive a narrativa e a criatividade, fazendo com que as características dos personagens façam diferença e influenciem o jogo.

Ao mesmo tempo, queria fazer algo diferente, queria dar uma liberdade ainda maior tanto para os jogadores quanto para mim, como narrador. Assim, ao invés de limitar o jogadores aos personagens da animação, por que não permitir que eles interpretem novos jovens e crianças que foram parar naquele mundo fantástico, também. Talvez o jogo se passe anos depois dos eventos narrados na série e um outro grupo foi enviado para lá. Quem sabe umas reviravoltas tivessem ocorrido naquele mundo. Assim, cada jogadores teria a chance de criar seu próprio personagem, um amalgama de aventureiro e pessoa comum, que teriam um objeto de poder, assim como os do desenho, que pode ser completamente diferente daqueles (talvez um cetro que lhe dê poderes de um clérigo, ou uma flauta que lhe dê poderes de bardo). Da mesma forma, o narrador teria mais liberdade para mudar o mundo e as tramas.

Assim, pensando em começar uma nova campanha (já que terminou a de The One Ring), eu acabei tendo a ideia do seguinte enredo introdutório para o jogo que eu chamaria, inicialmente, de "Caverna da Dragão - De Volta ao Reino". Tudo se passa depois do fatídico episódio "The Requiem", o último episódio da série, que nunca foi completado. Os seis jovens descobrem que o Vingador é filho do Mestre dos Magos, o salvam da magia que o transformou naquela criatura maligna; conseguem, finalmente, uma chance clara de voltar para casa, mas optam por continuar naquele mundo, ajudando o Mestre dos Magos a combater o mal, e se tornam heróis. O tempo passa e eles vão assumindo papeis cada vez mais importantes naquele mundo, participando ativamente em diversas ocasiões. Eric, o cavaleiro, antes covarde e medroso, se torna honrado e generoso, sendo coroado Rei de uma pequena região. Hank, Sheila e Bob se tornam defensores do Reino e viajam pelo mundo combatendo o mal. Dianna criou um circo que viaja em cidade em cidade apresentando malabaristas, mágicos, domadores de animais e monstros, trazendo alegria e diversão para regiões distantes que só conheciam o medo. Presto, finalmente aprendeu a controlar seus poderes e se tornou um mago sobre a tutela do Mestre dos Magos. E tudo correu bem, por algum tempo, até que algo terrível aconteceu.

Um certo dia, o Mestre dos Magos e seu filho (ex-vingador) reúne todos os seis heróis e os pede ajuda. O Mal Inominável, de uma outra dimensão, estava para adentrar o mundo deles novamente, e a última vez que ele o fez, coisas terríveis aconteceram. Assim, todos eles saem juntos para combater esse mal. Esse ser extra-planar no entanto, nem estava sozinho. Muitas criaturas bizarras e malignas o aguardavam e defendiam o caminho até o coração do Templo do Mal Eterno. As batalhas foram difíceis e outros obstáculos quase fizeram com que a missão deles falhassem, mas com muita coragem, bravura e inteligência, o grupo chegou até o coração do templo, onde um portal estava sendo aberto. A criatura ainda não estava toda materializada no plano do Reino, mas seu poder era sensível. Todos os heróis a combatiam com o máximo de suas forças. Hank, os liderava, como sempre fez, mas, por mais que fizessem, a criatura não parecia perder suas forças e ficava cada vez mais poderosa. O Mestre dos Magos e seu filho, foram ao encontro do monstro em seu mundo nativo, para tentar interromper o ritual, mas não estavam obtendo sucesso. Foi então que Bob tomou uma das decisões mais difíceis de sua vida. Ele adentrou o portal e foi enfrentar a criatura em seu mundo. Seus poderes, no entanto, não eram suficientes para vencê-lo, mas seu sacrifício foi o que bastou para que o ritual fosse interrompido e o portal se fechasse por mais uma vez.

A batalha fora vencida, mas a grandes custos. O Mestre dos Magos, seu filho e Bob se foram, os cinco heróis que lá permaneceram estavam feridos e arrasados. Mas isso não era tudo. Algo profundo os afetara, fazendo com que eles nunca mais fossem os mesmos. Eric, o Rei, se tornou um líder passivo, frio e distante (como Theoden quando estava sobre os encantos de Saruman). Dianna perdera toda a confiança e alegria que sempre a acompanhou, passando a vagar com seu circo que, agora acompanhava seu humor. Talvez a maior mudança tenha ocorrido com Sheilla e Hank. Sheilla não conseguiu aceitar a morte de seu irmão e culpou Hank pelo ocorrido, por ele ter falhado como líder. Este, arrasado e se sentindo culpado abandonou seu objeto de poder e fugiu, se perdendo no naquele mundo, para nunca mais ser visto. Sheilla, desesperada, sem saber o que fazer, recorreu a algo terrível, ao mal que levou seu irmão, para trazê-lo de volta, mas isso custou caro. Ela e seu irmão se tornaram servos do Mal Inominável, ela se tornando o novo Vingador e Bob se tornando o Cavaleiro Negro. Presto, apesar do Trauma, talvez tenha sido o menos afetado. Ele tomou para si a responsabilidade de ser o novo Mestre dos Magos, agora que havia um novo vingador e um mal poderoso nos Reinos.

E é aí que começa a jornada dos novos jovens aventureiros nesse mundo. Da mesma forma que aconteceu com os anteriores, algo os leva para lá (provavelmente Presto) e o Mestre dos Magos os promete ajudar a sair de lá e lhes oferece objetos de poder. No entanto, acada aventura faz com que eles façam escolhas difíceis entre ganho pessoal e o bem maior. A ideia ainda está bem crua, e o sistema bem no rascunho, mas tenho bastante vontade de experimentar, ver como fica e escrever uns contos baseados nessa nova história. Quem sabe não fica legal. Vamos ver se meus jogadores topam experimentar.

Adendo: Gostaria de agradecer a ajuda do Guilherme Nascimento do Flying Ape pela ajuda e opiniões sobre essas ideias a primeira vez que falei com ele sobre o assunto. O título do jogo/postagem ia ser "Caverna do Dragão - Nova Geração", mas ele, sabiamente, falou que tava brega demais, daí mudamos para "De Volta aos Reinos".

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