terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Reflexões sobre Raças como Classes

Todo mundo, ou quase todo mundo, sabe que nas edições clássicas de D&D (B/X, BECMI, e Rules Cyclopedia), não havia separação de raça e classe. Anões, elfos e halflings eram uma classe de personagem ao mesmo tempo que eram uma raça. Um anão era um anão e não podia ser outra coisa. No OD&D até existe essa diferenciação, mas efetivamente ela não faz tanta diferença, já que as raças possuem uma considerável restrição nas escolhas de classes. Anão deve ser guerreiro, halfling também. Apenas o elfo que deve possuir duas classes, guerreiro e mago, e alterna entre elas nas aventuras.

Esse tipo de divisão sempre me deixava encucado antigamente, e quando no AD&D e nas edições subsequentes passou-se a permitir uma maior liberdade de escolhas, eu passei a olhar para essas edições passadas com um certo desgosto. Mas esse não é mais o caso agora. Relendo o OD&D, e me preparando para uma campanha nele, ao mesmo tempo em que passo a ler e pesquisar os contos de fantasia e ficção que inspirarão o nascimento do jogo, a minha visão sobre Raças como Classes mudou bastante e acho até bastante interessante. Ela diz bastante coisas sobre o cenário do jogo.

A primeira coisa que essa divisão mostra, obviamente, é que o homem é bem mais versátil que as raças semi-humanas. Podendo escolher qualquer classe disponível no jogo, os humanos demonstram uma liberdade e versatilidade muito maior que as outras raças. Isso já deixa claro que as culturas humanas são muito mais variadas e diferentes que as semi-humanas. Essas raças, talvez devido à sua maior longevidade, tendem a ser mais tradicionais, fechadas, e isso limita as escolhas de seus membros.

Além disso, é uma característica dos mundos de fantasia mais tradicionais que os humanos dominam o mundo e são muito mais numerosos que as outras raças, que vivem apenas nos resquícios de seus antigos reinos e impérios. Ou seja, os semi-humanos são decadentes, o tempo deles já passou. Eles já estiveram no topo do mundo, já possuíram Reinos e Impérios que de estenderam por continentes inteiros, mas esse não é mais o caso. Algo ocorreu que os reduziu em números significativamente, e eles agora são só uma sombra do que eles já foram. Isso pode ser outra razão para que esses indivíduos se tornem mais limitados e apegados às tradições e antigas maneiras de fazer as coisas. Eles perderam muito, e agora se mantêm seguros naquilo que podem.

Os halflings parecem ser uma exceção há essa regra. Sem dúvida os elfos e anões são raças antigas, mas o halflings não parecem ser. Talvez eles sejam apenas uma raça nova, ingênua, campestre e inexperiente. Eles ainda não possuem muita experiência com o mundo, e talvez nem pretendam ter, em sua maioria. O estranho, o fantástico e o mágico, de maneira, geral, são evitadas pelas pequenas comunidades dessas criaturas e são poucos aqueles que se aventuram a conhecer o resto do mundo. Daí a restrição deles como classe, é só isso que eles conhecem. Os halflings, naturalmente, tendem a ser meio guerreiros, meio ladinos, e esses são só os aventureiros, os que se distanciam de seu povo.

Um outro detalhe que reforça essa noção de que as os semi-humanos são raças isoladas, de poucos números, decadentes, é o fato de que só existem clérigos humanos. O tempo dessas raças já passou no mundo. Seus deuses já não influenciam o destino dos mortais, eles já abandonaram esse mundo ou não possuem poder suficiente para conceder milagres ao seu povo. Isso não quer dizer que eles não possuam ordem religiosas, apenas que os sacerdotes não são capazes de realizar os feitos que os clérigos humanos conseguem. Esse é o tempo deles, dos homens, os deuses os escolheram e os concedem milagres, e eles se tornaram a raça dominante do mundo.

Eu acho que isso tudo, e as limitações de classes para essa raças não humanas ainda contribuem para uma última característica muito importante. Elas não são humanas, elas são alienígenas, estranhas, fantásticas. A sociedade, o comportamento, o cérebro, e a alma dessas espécias é diferente e estranha, não sendo equivalente ao homem. Eles são únicos tem característica próprias que os impedem de serem iguais aos homens. Dessa forma, essas raças não são só humanos com características diferentes, orelhas pontudas, barbas cumpridas ou pés peludos. A mesma lógica que se aplica aos humanos não se aplica a eles.

Anões são nascidos da terra, das rochas. São encarnações da obsessão por metais, gemas, ouro, ganância e bravura. Eles não pensam da mesma forma que os homens. Elfos são espíritos da floresta, imortais, presos numa eterna juventude e vivendo apenas o momento. Halflings são crianças adultas, confortáveis em seu pequeno mundo e desinteressados por tudo que está lá fora. A simples existência de aventureiros dessas espécies é algo raro, mas no final, eles ainda são aquilo que nasceram e nunca serão humanos, e por isso nunca funcionarão dentro de jogo como um.

Bem, esses são só os meus pensamentos atuais sobre a questão. Não estou querendo dizer que o jeito certo de jogar é com Raças como Classes, mas que há uma lógica por trás dessa escolha, e que faz sentido se analisarmos o contexto do jogo. Eu, particularmente, acho essa visão muito interessante, e é um dos motivos por que gosto tanto do D&D B/X e do próprio DCC RPG que voltou a tratar as raças como classe (e com uma elegância e criatividade invejáveis). E vocês? O que acham dessa abordagem das raças? Já pararam para pensar no porque de ser assim? Possuem uma visão pessoal da questão? Este é um assunto que me deixa bastante curioso!

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