quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Engenharia de Masmorra - Contando Histórias

As masmorras, antes de qualquer coisa, são construções remanescentes de habitantes passados (ou mesmo, ainda atuais). Sendo assim, elas tiveram um propósito para serem construídas, uma história, acontecimentos e seres importantes que a habitaram, e isso deve ser visível para os aventureiros que a visitam, principalmente se eles forem atentos aos detalhes.

Em minha opinião, as masmorras mais interessantes são aquelas nais quais os personagens conseguem "ler" uma história (ou mesmo algumas histórias) por trás dela. Por meio de murais, estátuas, escrituras, sinais nas paredes, móveis e outras coisas que mostram o seu passado, o que ocorreu ou ocorria ali. Muitas vezes, essas e outras coisas podem ajudar os aventureiros a se preparar para os desafios que irão enfrentar, como quando encontram uma dezena de estátuas quase perfeitas de seres humanos em poses de terror, indicando a presença de alguma besta terrível que é capaz de petrificar suas vítimas. Combinando isso com murais, diários, pinturas e outras coisas mostrando a imagem de um monstro, ou uma mulher com cabelos de serpentes, uma história já começa a ser contada.

Então, esse artigo é para tentar ajudar os engenheiros de masmorras a construir masmorras que contem histórias, que deem informações aos personagens, que narrem eventos e anunciem acontecimentos. Vou tentar falar sobre elementos, objetos, encontros e outras coisas que podem ser usados por nós como um veículo para informações e histórias que jogadores atentos e espertos usariam para "ler" as histórias da masmorra.

Arquitetura: A arquitetura do local pode dizer muito sobre ele, e de várias formas. A estrutura da masmorra como um todo, seu tamanho, o tamanho das portas, a altura do teto, o piso e as paredes podem indicar que tipo de criaturas viviam ali, seu tamanho, seu hábitos. Anões, por exemplo, podem preferir aposentos com tetos altos e portões largos, enquanto elfos preferirão portões mais estritos e alongados. Além disso, raramente essas construções serão como as nossas construções atuais, sem adornos, entalhes, estátuas, relevos. A arte e construção de cosias estavam intimamente ligadas, tudo era feito em conjunto, não existia um pensamento unicamente funcional na idade média. Assim, fatalmente, essas construções terão detalhes que contam ainda mais histórias sobre o povo que ali viveu. Detalhes em forma de folhas, flores e curvas, podem indicar uma construção élfica, detalhes mais geométricos, no entanto, podem ser de anões. Enquanto uma tumba construída para abrigar os mortos, poderia ter detalhes de crânios, imagens da morte e outras coisas.

Pilares: Pilares, colunas e outras estruturas de sustentação são uma constante na maioria das masmorras. Eles são um exemplo perfeito de como a utilidade e a arte se misturavam. Usados para dar sustentação em aposentes granes, esses elementos era normalmente adornados, esculpidos, pintados e trabalhados para transmitir alguma informação. Assim, em um tempo dedicado ao maligno deus serpente Set, pode haver pilares esculpidos em forma de pessoas envoltas e sendo devoradas por cobras. Na catacumba de um antigo Rei-Bruxo que se considerava superior a todos os homens, as pilastras podem ter a forma de pessoas curvadas carregando um peso muito grande, como se estivessem abaixo dele. Dê alguma indicação da filosofia, crença, ou proposito do local por meio desses elementos.


Arcos e Portões: Essas construções servem como passagem e chamam muita atenção por parte dos aventureiros. Atrás delas podem estar quaisquer coisas: Monstros, Tesouros, Armadilhas, e coisas muito mais misteriosas. Assim como os pilares, esses elementos são raramente isentos de adornos e detalhes. Esses, geralmente, são feitos para indicar o que há a frente, o que espera aqueles que passarem por ali. Assim, um portão que leva até a sala do tesouro de um rei anão pode ter esculpido em si a imagem de uma gigantesca gema e coroa. A passagem para a tumba de um lich traria diversas inscrições estranhas esculpidas, símbolos arcanos, crânios e outras coisas mais sinistras.

Estátuas: Estátuas podem dizer muitas coisas sobre um local, como, por exemplo, que pessoas construíram aquele complexo, quem era o líder deles, seus heróis, seus deuses e outras coisas. Elas servem muito bom como prenúncios do que eles podem encontrar por lá, como a estátua de uma criatura estranha que era adorada pelos habitantes originais. Criatura essa que ainda sobrevive no interior da masmorra. Estátuas ainda podem servir como anúncio de monstros capazes de petrificar suas vítimas, como basiliscos, medusas e outros.

Pinturas e Murais: Esses elementos decorativos são uns dos mais interessantes para se inserir nas masmorras e contar histórias com elas. Pinturas e murais podem mostrar narrativas inteiras, quase como histórias em quadrinhos. Imagine uma sala octogonal com uma imagem em cada uma das paredes mostrando uma cena que vai se complementando nas próximas. Um corredor levando até a sala de sacrifícios de um templo maligno pode mostrar diversas imagens de vítimas sendo capturadas, depois levadas ao templo, sendo sacrificadas e o deus maligno aparecendo no final. Isso já diz tudo, não é?

Altares: Altares para deuses, entidades extra-planares e criaturas lendárias são clássicos e estão presentes em quase todas as masmorras. Sejam eles esculturas feitas em ouro, com detalhes angelicais, decoradas com panos finos, ou blocos de pedra machados de sangue de diversos sacrifícios, esses objetos podem contar um pouco sobre quem os construiu ou quem os utiliza. Estatuetas, adagas rituais, livros de orações, incensos e outras coisas que estiverem no altar podem indicar o deus a que ele é dedicado, as práticas do seu culto, seus seguidores e outras coisas.

Corpos: Outra coisa que conta um pouco sobre o que está acontecendo (ou aconteceu) na masmorra, são os corpos que os aventureiros encontram pelo caminho. O corpo de alguns orcs semidevorados, faltando pedaços e com marcas de dentes e garras revela duas coisas. A primeira, obviamente, que há orcs na masmorra. A segunda é que, além de orcs, há outra criatura capaz de devorar vários orcs. As possibilidades aqui são muito grandes, como o clássico esqueleto que parece apontar para algum lugar, possivelmente indicando algo. Objetos encontrados com os aventureiros também podem dar algumas dicas.

Marcas: Outra coisa que pode dizer alguma coisa sobre a masmorra são as marcas que os habitantes mais recentes deixam no local. Paredes com escritas, portões bloqueados com dizeres para que se mantenham afastados, estátuas danificadas, altares a deuses rivais destruídos, pegadas e marcas de garras nas paredes. Enfim, é interessante pensar em como os habitantes atuais da masmorra modificaram e deixaram marcas de sua passagem pelo local. Talvez uma serpente gigante deixe sua antiga pele amontoada em uma sala, um troll deixe os ossos ruídos de suas vítimas pelos corredores, e os orcs destruam as estátuas dos heróis anões na fortaleza que tomaram.

Escrituras & Livros: Não é incomum achar salas abarrotadas de pergaminhos antigos, bibliotecas inteiras, ou mesmo um aposento que possua uma parede completamente abarrotada de hieróglifos em uma masmorra. Essa é talvez uma das ferramentas mais simples de serem usadas em masmorras para contar uma história e revelar informações sobre o local. Um esqueleto de um ex-aventureiro portando um tomo no qual ele narra seus últimos dias na masmorra podem trazer informações muito úteis aos aventureiros, levantar algumas questões e aumentar a tensão na mesa, principalmente se ele não revelar totalmente o seu fim.

Enfim, com todas essas ferramentas (e outras facilmente criadas), você tem a oportunidade de ir fornecendo partes da história aos jogadores aos poucos, e eles podem perceber isso ou não. Para alguns deles, vai ser parte da diversão do jogo descobrir cada detalhe dessa narrativa, dessas dicas e informações que estão ali para serem descobertas. Para outros, isso pode parecer detalhes irrelevantes, mas quando a criatura que deixou as marcas na parede do aposento anterior atacar seu personagem de surpresa, pode ser que ele repense sua filosofia.

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