domingo, 5 de fevereiro de 2012

Usando Mouse Guard em outros RPGs

Mouse Guard é um RPG fantástico baseado em uma série de quadrinhos onde os ratos possuem cidades e lutam pela sobrevivência e paz em seus territórios. É um jogo que merece uma resenha própria e essa postagem não será de resenha, mas, sim, de como utilizar algumas idéias desse sistema em outros RPGs, de forma a criar uma experiência mais rica e divertida, não importa qual seja o seu jogo favorito.

O jogo usa como base o sistema do Burning Wheel, mas tem uns toque legais que o diferenciam. O que eu gostei mais no jogo foram alguns elementos narrativos que podem se encaixar em qualquer sistema ajudando a desenvolver personagens mais interessantes e "reais" com poucos palavras, a recompensar jogadores pelo esforço de seus personagens e interpretação das características deles e de deixar a história fluir, mesmo quando os dados indicam que tudo deu errado.

Personagens mais interessante: O Mouse Guard RPG usa algumas características para descrever os personagens de forma rápida, porém muito enriquecedora. Todo personagem possui uma Filosofia (Belief), um Instinto (Instinct) e um Objetivo (Goal). Cada um desses aspectos diz um pouco do personagem e serve para guiar sua conduta durante o jogo e são descritos com apenas uma frase. A Filosofia de um personagem diz um pouco daquilo que ele acredita, que ele considera importante na sua vida. Assim, um paladino poderia ter como Filosofia a frase "Os fortes tem a obrigação de defender os fracos do mal que os assola". Já um ladrão típico de fantasia medieval poderia ter algo como "A vida é dura com aqueles que não sabem tirar bom proveito dela, por isso eu aprendi cedo a não desperdiçar oportunidades". O Instinto é algo que seu personagem sempre faz em determinada situação, uma característica marcante. Novamente, no caso do paladino, poderia ser algo como "Sempre pede permissão a seu Deus antes de puxar sua arma", ou no caso do ladino algo como "Quando estiver em dúvida do que fazer, deixa sua moeda de platina da sorte decidir". Por último, o Objetivo é aquilo que seu personagem pretende fazer, mas não precisa ser um objetivo distante. Aliás, o ideal é que seja algo alcançável na aventura atual. Ou seja, de tempos em tempos você pode, e deve, atualizar o Objetivo do personagem. Ele serve com um bom indicador se ele está buscando alcançá-los ou não. Como exemplo em uma missão de resgate do artefato perdido na cripta dos mortos o paladino poderia ter como objetivo "Recuperar o artefato sem que nenhum dos meus companheiros sejam mortos" e o ladrão algo como "Conseguir algo além de poeira das tumbas, algo que tenha alguma valor". Esses três elementos simples ajudar muito na hora de você jogar com seu personagem, lembrando-sempre de como interpretá-lo. Simples e eficiente.

Recompensando os jogadores: Além disso, as características acima servem para o narrador avaliar o quão fiel o jogador foi ao seu personagem e recompensá-lo de acordo (seja com pontos de experiência, pontos de narrativa ou outro mecanismo que o RPG usar). Como o trabalho do narrador é propor desafios aos personagens, você pode usar a Filosofia, o Objetivo e o Instinto dos personagens para criar desafios especialmente moldados neles. Algo do tipo: "Então seu personagem acredita que o dever dele é sempre ajudar a quem precisa? E agora? A caverna está desmoronando, o artefato que ele buscava está no altar na sala a esquerda, mas o guia que o trouxe até ali está preso debaixo de uma pedra a sua direita, só há tempo de salvar um dos dois. E agora?". Coloque os personagens em situações que eles precisem pensar se seguem aquilo que escolheram como características de seus personagens e os recompense caso se mantenham fiéis ou se eles, ao romperem com os elementos em questão, alcancem um crescimento importante. O Mouse Guard ainda indica outras formas recompensar os jogadores: No início de cada sessão, peça para alguém fazer um prelúdio do que ocorreu até então e dê algo em troca (um ponto de narrativa, ou um bônus que ele possa usar a qualquer momento), isso ajuda os jogadores a se envolver mais na história e relembrar o porque de estarem ali; No final de cada sessão dê algo para aquele jogador que fez uma ação decisiva na história (achou uma pista que os levou ao lugar certo, conseguiu dar o golpe fatal na criatura que parecia imortal) e aquele que carregou o grupo nas costas por um bom tempo (uma aventura que se passou na floresta e teve que contar em muitos momentos com as habilidades do ranger por exemplo, ele merece algo em troca).

Deixe a história fluir: Nunca é bom deixar o andamento de uma aventura se decidir em um rolamento de dados. Eu tento sempre criar maneiras alternativas de se prosseguir com a história que possam ser seguidas mesmo se um teste falhar. Mas o Mouse Guard dá outra alternativa interessante que pode ser usada em qualquer jogo. Se o personagem estiver procurando o rastro do grupo que se perdeu na floresta e falhar no teste, deixe que ele encontre o rastro, mas coloque um "porém". Ele encontra a carroça que eles estavam usando, mas ela está vazia e com marcas de combate e armas pelo chão, alguém os encontrou antes. Ou então deixe que ele os encontre, mas chegou cansado e terá penalidades em testes futuros. O segredo é não deixar que um rolamento decida se o personagem conseguiu ou não realizar a ação, mas sim o quão bem ou em que condições ele conseguiu realizá-la. Assim, mesmo que o jogador não foi bem sucedido no rolamento, você pode deixar ele alcançar seu objetivo mas introduzir uma nova dificuldade, dando uma virada na história, ou deixá-lo com alguma penalidade ou condição devido ao esforço e desgaste que ele sofreu para realizar aquela ação. É uma maneira interessante de deixar a história rolar ou até mesmo de introduzir novos elementos nela.

Mouse Guard é um RPG muito legal e fácil de jogar e narrar. Em breve devo fazer uma resenha por aqui, mas por enquanto já dá para ir conhecendo esses aspectos do jogo. Espero que curtam.

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