sábado, 21 de julho de 2012

Um pouco sobre Jogos de Narrativa Compartilhada

A estrutura tradicional dos RPGs pressupõe um grupo, formado por um mestre (ou narrador, ou juiz, ou...) e um ou vários jogadores. Esse mestre é aquele responsável pela elaboração da premissa básica da história; pela criação de desafios para os personagens dos jogadores; pela criação de um mundo inteiro onde a história se passará; pela introdução de outros personagens, sejam coadjuvantes ou antagonista; entre uma série de coisas. Já os jogadores, eles são responsáveis apenas por seus personagens, e o objetivo deles é fazer com que o personagem seja bem sucedido em seus objetivos, e eles assumem que a história sendo contada gira em torno deles, sempre.

No entanto, de uns tempos para cá, um outro tipo de RPG tem se tornado popular (não tanto com os tradicionais, ainda). São os chamados "Story-Games", "Jogos Narrativos" ou mesmo "Jogos de Narrativa Compartilhada". Eles funcionam de forma diferente, já que não possuem um mestre específico ou fixo, fazendo com que todos os participantes da mesa tenham poder de narrar e construir a história em conjunto. Esses jogos surgiram quando alguém percebeu que a diversão toda ficava na mão de uma só pessoa, o mestre, nos RPGs normais, e era preciso dividir essa diversão com todos os participantes.

Eu não sou nenhum especialista em Jogos Narrativos, mas tenho me divertido bastante com eles (principalmente Fiasco e Violentina). No entanto, tenho visto que muitos outros jogadores e mestres, mesmo experientes, tem certa dificuldade de entender e se adaptar a essas jogos, mesmo achando a ideia e a premissa deles bem legais. Por isso, resolvi fazer uma postagem com algumas dicas/sugestões para ver se consigo ajudar alguém que esteja tendo algum problema em entrar no espirito do jogo e entendê-lo. Sendo assim, essas dicas e conselhos serão primariamente baseados em minhas experiências com o Fiasco e o Violentina, que são, justamente, os jogos mais populares por aqui desse estilo, embora existam outros.

Todos São Mestres: Fala-se muito que esses jogos não possuem mestres e, até mesmo, os chamam de "GMless Games", mas fica muito mais fácil de entender como tudo funciona se você pensar justamente no contrário: Todos são mestres! Todos são responsáveis pela criação de uma história, de um cenário, de conflitos, de desafios e de personagens.

Atenção e Dedicação: Justamente por todos serem mestres nesse tipo de jogo, ele exige uma atenção e envolvimento no jogo muitas vezes maiores do que nos RPGs mais comuns, já que você precisa participar e ajudar os outros jogadores a criar as histórias o tempo todo. Da mesma forma, você vai precisar e vai querer que os outros jogadores estejam participando na hora em que estiver criando a história. Nesse tipo de jogo, para que algo realmente divertido seja criado, todo mundo deve se envolver. Nos jogos mais tradicionais, o jogo não vai se prejudicar tanto se vez ou outra, quando não estiver na sua vez, você não prestar tanta atenção. Afinal, você só é responsável pelo seu personagem mesmo.

Você é Responsável por Tudo: É bom deixar isso bem claro. Nesses jogos, você não é responsável apenas pelo seu personagem, você é responsável por tudo, e em nível de igualdade. É preciso que você se dedique à história como um todo, ajudando ela a se desenvolver e se tornar algo divertido e memorável para todos os participantes. O seu personagem não é mais importante que nenhum outro. Aliás, ele é menos importante do que a história como um todo.

O Mundo não Gira ao Redor do seu Personagem: Com base na dica acima, é importante você perceber que o jogo não é sobre o seu personagem, especificamente. Ele é sobre uma história na qual o seu personagem tem alguma participação. Essa participação pode ser principal, secundária ou até mesmo tangencial. Os personagens são apenas ferramentas para que algo maior seja criado, use a abuse deles para o bem da história.

Não se Apegue às Ferramentas: Por causa disso, não se apegue ao seu personagem. Ele está ali para ser usado e abusado, tanto por você como pelos outros jogadores. É bem capaz que coisas terríveis aconteçam com ele. Se ele morrer, mas a história ficar mais interessante com isso, não se desespere e aceite a morte dele, ou melhor faça-a de forma realmente divertida e interessante para todos na mesa!

O Jogo depois da Morte: Se seu personagem morrer, o jogo continua para você. Você pode narrar cenas de flashback com seu personagem ainda vivo que expliquem e recontem partes da história que podem, ainda assim modificar os acontecimentos que estão se desenvolvendo. Ou então, você pode criar cenas em que mostre as consequências da morte de seu personagem para os outros da história.

Não Perca Tempo: Esses jogos de narrativa compartilhada são, geralmente, curtos. Uma sessão de 2 a 3 horas é o suficiente para contar uma história completa, como em um filme. Sendo assim, da mesma forma como acontece nos cinemas, apenas o essencial e aquilo que impulsiona a história para frente ou serve para deixar claro sobre o que o filme é, deve ser contado. Muita coisa precisa ser cortada. Então, quando for a sua vez de narrar, vá direto ao ponto. Crie conflitos que impulsionem a história e faça os personagens tomarem decisões importantes que afetem o máximo possível a narrativa.

Dê e Aceite Sugestões: Para que as cenas do jogo sejam realmente significativas e ajudem a impulsionar a história, é importante que todos estejam dispostos a ajudar a criá-las. Assim, as vezes você pode pensar em uma cena que seja legal e comece a colocar a história em movimento, mas um de seus amigos de uma sugestão que você não tinha pensado antes. Essa sugestão pode colocar seu personagem em uma situação desconfortável, mas se ela fizer com que a história se torne mais interessante e divertida, aceite e continue a história. Da mesma forma, quando outro jogador estiver criando uma cena e você achar que pode ajudá-lo, tornando a situação mais interessante, impulsionando a história, não exite em fazê-lo.

Não Jogue para Ganhar: Ao criar cenas e participar de cenas criadas por outros, não pense em ganhar ou se dar bem com o seu personagem. Pense no que seria mais divertido para a história, no que causaria mais confusão, ou forçaria a uma decisão mais significativa para os outros personagens. Como dito anteriormente, a história não é sobre o seu personagem, é sobre ela próprio, sobre algo que aconteceu e, por alguma razão, esse personagem teve uma participação.

Por fim, é importante dizer que esses jogos não são uma receita de bolo. Cada um deles tem uma dinâmica única, mas partem do princípio de que o importante é a história. No início eles parecem bastante desafiadores de se jogar, principalmente para quem já está bastante acostumado com o modelo tradicional dos RPGs, mas basta sentar-se sobre uma mesa e começar que se percebe o quão simples e intuitivos eles são.

Depois que se começa a jogá-los é difícil parar, já que são tão simples, divertidos e fáceis de jogar. Eles não exigem preparação, já que a história é criada na hora, e como as regras são bem simples, cabem em livros pequenos que podem ser levados para qualquer lugar (inclusive eu estou passando a levar o Fiasco para todo encontro de RPG que vou como mesa reserva para jogar). 

E aí? Essas dicas e sugestões ajudaram a esclarecer um pouco mais esses jogos? Quem está acostumado com eles teria mais alguma dica para compartilhar com a gente?

Se você gostou da postagem, visite a página do Pontos de Experiência no Facebook e clique em curtir. Você pode seguir o blog no Twitter também no @diogoxp.