domingo, 1 de julho de 2012

Crônicas da Terceira Era - Olho de Alghuir - Parte IV


A chuva fina caia sobre a companhia. Seus corpos, cansados e feridos com a luta contra o grupo de orcs caçadores que encontraram na busca pela fortaleza nos Campos de Lis, agora estavam encharcados com a água que caia. Elmara, a dúnedan, fora gravemente ferida pelo grande orc Dohrd e pelo arqueiro uruk, e só não perdeu a vida graças ao bravo Balared que a defendeu do monstro e ao anão Klandrin que lutou como um urso feroz. Mas agora, todos eles, estavam perdidos em um região amaldiçoada, escura e molhada.

Naquele momento, a primeira coisa que devia fazer, era se certificar que a dúnedan sobreviveria mais uma noite. Balared procurou na mochila da ranger e encontrou algumas que poderiam ajudar a parar o sangramento. O grupo colocou Elmara sobre o grande escudo do beorning e a carregou para um elevado próximo onde um grande árvore escura os protegia da chuva que não parava de cair. Ali, eles cuidaram dela.

Mas eles ainda precisariam encontrar um lugar para se abrigarem aquela noite. O Campos de Lis é um lugar estranho e a noite pode trazer um frio mortal, sem contar que não sabiam ao certo que tipo de criaturas encontrariam a céu aberto. Klandrin e Pêpe decidiram que iriam procurar por algum abrigo próximo e logo desapareceram entre a névoa fétida que cobria toda a visão do grupo. Os dois aventureiros andaram bastante, com calma para não acabar caindo em algum buraco imundo e molhado do pântano, de olho para não serem pegos por nenhuma criatura vil que se escondia naquele lugar, até que, duas horas depois, encontraram o que parecia ser uma grande árvore oca, com um buraco cavado na terra que levava até um porta de madeira tosca. Nenhum barulho era ouvido, a não ser o coaxar dos sapos e o zumbido dos insetos.

Pêpe foi o primeiro a tomar coragem, ou talvez não tenha resistido a curiosidade natural dos hobbits, e testou a porta que estava a frente deles. Ela estava aberta, e o pequenino logo se viu dentre de uma grande sala espaçosa e desarrumada. Tudo era feito de madeira lá dentro, ainda que de forma bruta. Havia uma mesa na parede leste com um banquinho, onde um mapa tosco da região fora desenhado em um pergaminho; na parede oeste um amontoado de peles provavelmente servia como cama para quem vivia ali, no sul da sala havia uma estante onde estava um machado muito parecido daqueles usados pelos homens da floresta e no norte, um caldeirão descansava sobre os restos de uma fogueira. Estava claro que alguém vivia ali. As cinzas do fogo ainda estavam quentes, o que significava que o morador não deveria estar muito longe. De qualquer forma, aquele era o único lugar protegido que haviam encontrado. Eles voltariam para avisar os outros da descoberta e torceriam para que quem vivesse ali deixasse que eles descansassem aquela noite sobre seu teto.

Quando saíram daquele lugar, tiveram uma surpresa. Não reconheceram o local ao redor deles, era como se a grande árvore oca tivesse mudado de localização com eles dentro. As Sombras eram traiçoeras naquele lugar, mas Klandrin, determinado como todo anão das Montanhas Solitárias, não se deixou vencer e, junto com Pêpe, desbravou aquele pântano fedido em busca do caminho de volta aos seus amigos. O caminho parecia ainda mais difícil do que na ida, como se a Escuridão estivesse testando a vontade dos dois. Por várias vezes eles tiveram que voltar para buscar uma passagem mais fácil, pois lagos, pedras e outros obstáculos bloqueavam o caminho deles. Por alguns trechos os dois tiveram que caminhar com a água na altura do peito, carregando suas mochilas sobre a cabeça. Mas o coração dois dois heróis fora mais forte do que a magia da Trevas e depois de uma longa jornada eles avistaram a elevação onde aguardavam Elmara, Aerandir e Balared.

O elfo, aproveitando sua visão aguçada, tinha escalado a imensa árvore negra para vigiar os arredores. Apesar da neblina sinistra que os cercava, seus olhos élficos permitiram que ele se mantivesse atento para a aproximação de qualquer inimigo. Ele viu Klandrin e Pêpe chegando antes que os dois tivesse noção que se aproximavam de seus amigos. Elmara ainda estava desacordada quando chegaram e teriam que carrega-la até o local. O anão explicou brevemente o caminho o que tinham encontrado e preparou todos para o possível encontro com quem quer que vivesse naquele abrigo.

O grupo, então, partiu em direção ao local onde pretendiam descansar aquela noite. Novamente o ambiente e o caminho que encontraram, não era aquele que esperavam. Parecia que os rumores que diziam que nada permanece no mesmo lugar nos Campos de Lis eram verdade. Já era madrugada quando avistaram novamente a grande árvore oca, mas dessa vez, uma luz trêmula, como de uma vela, podia ser vista através da porta da madeira. Todos ficaram parados, em silêncio, pensando no que fazer em seguida. Pêpe, então, pediu para que todos permanecessem parados e ele iria tentar ver que criatura estava ali dentro. Os hobbits são naturalmente um povo abençoado com a sorte dos Valar, mas as vezes nem eles escapam do azar. O pequenino, quando se apoiava em uma raiz para chegar até um orifício de onde pudesse olhar para o interior do abrigo, escorregou no musgo do tronco e desceu rolando, escada abaixo, para dentro da árvore oca, caindo bem na frente daquele que estava lá dentro.

Era um homem alto, de cabelos quase grisalhos, com alguns fios castanhos claros, barba cumprida e um olhar fanático. Ele devia ter quase cinquenta anos, pelas rugas em seu rosto e sua barba grisalha. Vestia uma armadura de couro feita com pele de crocodilo. Ao ver o hobbit entrando em seu lar sacou logo sua espada, que parecia ter dentes na lâmina, e gritou:

- Que vil criatura é esta que invade minha casa? Fale agora, ou prove o gosto da minha espada!

O hobbit tratou logo de se explicar, levantando ambas as mãos para mostrar que não estava armado: "- Acalme-se, senhor. Sou apenas um hobbit procurando abrigo por uma noite, pra mim e para meus companheiros. Não lhe queremos mal."

Nesse momentro, adentram o local Klandrin e Balared, carregando a dúnedan ferida. Os olhos do homem se arregalam: "- Mais invasores? Quem são vocês? São servos da Escuridão? Se forem, vocês terão que me enfrentar!"

- Não, meu senhor, esses são meus amigos. Sou Pêpe, Lingua-Afiada, do Condado. Esses são Klandrin, da Montanha Solitária; Balared, um beorning do norte; Elmara, um dúnedan de Eriador; e lá fora está Aerandir, um elfo  da Floresta de Mirkwood. Somos inimigos da Escuridão, assim como você. Nossa amiga foi ferida por orcs, por isso precisamos de abrigo.

O olhos amendoados de Pêpe eram a mais pura expressão da verdade. O homem que segurava sua espada com as duas mãos, abaixou a arma e observou o grupo por um tempo. Por fim, deixou que todos entrassem e perguntou se não foram seguidos, já que se esconderijo ainda não tinha sido achado por nenhum monstro que vivia naquele lugar amaldiçoado.

O que se seguiu foi um diálogo entre a companhia e o velho, que parecia um pouco perturbado. Aparentemente ele já estava vivendo naquele lugar há alguns anos, quantos ele não sabia mais dizer. Ele esquecera seu nome, e se referia a si como Espada Dentada, devido a sua arma, que nunca abandonava. O senhor fora um homem da floresta um dia, mas veio aos Campos de Lis com a missão de matar uma criatura terrível, Alguir, um besta antiga. Mas ele não falou muito, e disse que ficaria de vigia enquanto o grupo descansava, para ter certeza que nenhum monstro os seguira até ali.

O noite dos heróis, no entanto, não foi tranquilo, como nenhum até agora tinha sido naquela região. Naquela noite eles sonharam estar em um lugar escuro, uma masmorra, úmida, cheia de teias de aranha, com o barulho de gotas caindo sobre uma superfície alagada, e o roncar de um monstro gigantesco. Um olho gigante pode ser visto na escuridão, um olho negro e viscoso. Tentáculos, vários deles, ao redor do olho e uma bocarra redonda capaz de engolir dois cavalos de uma vez. E os tentáculos se aproximam envolvendo cada um deles, sufocando-os e os arrastando para aquela boca...

Era a manhã seguinte, o grupo acorda suado e cansado do pesadelo que tiveram, alguns visivelmente mais abalados do que outros. Aerandir quase não falava nada e as vezes parecia estar conversando com si mesmo. O Espada Dentada logo apareceu trazendo várias pequenas rãs e as ofereceu para o grupo de desjejum, mas nenhum deles aceitou a oferta. Perguntaram para o senhor que criatura ele viera caçar, e ela a descreveu para o grupo. Era a mesma com a qual sonharam, era Alghuir, e ela se escondia na fortaleza que procuravam.

Não foi difícil, a partir disso, convencer o velho guerreiro a ir com ela a procura daquele local. Ele próprio já o tinha visto uma vez, mas nunca mais o achou de novo, pois, como é sabido, nada fica no mesmo local por muito tempo nos Campos de Lis. O novo grupo andou por muito tempo, as vezes em círculos, as vez por sobre colinas, outras vezes por terrenos alagados e traiçoeiros, onde um único paço em falso os colocaria a dezenas de metros abaixo do chão. Parecia que todo aquele lugar estava tentando fazer com que eles desistissem e fossem embora. O chão parecia agarrar seus pés para que não andassem mais, os insetos tentavam fazer com que se confundissem e caíssem em algum buraco, e a neblina, sempre ao redor, pregava peças em suas cabeças, mostrando formas e visões estranhas entre as árvores contorcidas ao redor.

Ao anoitecer do primeiro dia depois de terem saído do abrigo, eles viram o contorno da fortaleza no alto da colina novamente, e uma sensação gelada percorreu a espinha deles. Parecia que algo ou alguém os olhou de volta de lá, um olhar maligno e gelado. De qualquer forma, aquilo indicava que eles estavam indo para o lugar certo. Eles andariam só mais um pouco aquela noite, até que encontrassem um lugar seco e reservado para descansar.

Viram, então, em um elevado, uma formação rochosa que os protegeria do vento gelado da noite, da chuva e do olhar das criaturas da Trevas. O caminho até lá, era através de um campo alagado que deixava a água até a cintura da maioria, mas quase no pescoço do hobbit e do anão. Mas algo pior do que isso acontecera. Na água, algo se movia, algo grande. Aerandir avistou, do outro lado do lago a calda de uma grande serpente mergulhando na água. Por entre aquele escuro líquido eles podiam ver o brilho esverdeado das escamas do monstro, se aproximando. Então, todos começaram a correr, cada um o mais rápido que conseguiam, mas o anão carregava mais peso do que todos e parecia que não conseguia sair do lugar. Quando chegou na margem da colina, uma grande cabeça de serpente voou para fora d'água e quase o abocanhou, foi por pouco.

Todos se esconderam entre as pedras aquela noite, mas ninguém conseguiu dormir mais do que alguns minutos. Algo estava a espreita, eles podiam sentir. O pouco sone que tiveram era perturbado com visões estranhas da criatura que se escondia na fortaleza e a sensação de que algum mal se aproximava. A noite pareceu uma das mais longas que eles já tiveram, mas o sol da manhã quase não veio. Era como se uma grande nuvem negra tapasse o céu.


A companhia levantou cedo, queriam chegar rápida à fortaleza que viram na noite anterior, antes que ela mudasse de lugar novamente. A jornada foi longa, perigosa e cansativa. Por vezes parecia que eles estavam andando em círculos e tiveram que retornar por onde tinham vindo há pouco para contornar obstáculos. Até que ao anoitecer eles avistaram a fortaleza, apenas a algumas centenas de metros deles.

Ela ficava no alto de uma grande colina de rocha verde escura. Uma escadaria velha e deteriorada levava até o topo da elevação, onde os portões da fortaleza ficavam. Klandrin, que conhecia a natureza das rochas e sua utilização em construções como todo anão, averiguou as condições do caminho. Era um trajeto perigoso, com riscos de desabamento, mas, se fossem com calma, conseguiriam chegar lá em cima em pouco menos de uma hora. Assim, eles foram subindo, devagar, verificando a resistência de cada degrau a frente deles. Nenhum ruído chegava ao ouvido dos aventureiros, era como se não houvesse nada nem ninguém ali.

Ao chegarem aos portões do local, viram que este era feito de um metal escuro, agora enferrujado, gravado com vários símbolos grotescos da linguagem negra de Mordor. Um corvo negro estava pousado sobre a parede de pedra que sustentava os portões, observando a chegada do grupo. Elmara, já angustiada, não exitou nenhum segundo. Puxou seu arco e em uma flecha certeira perfurou o peito da ave sinistra. O som do seu pequeno corpo caindo no chão foi tudo que ouviram. Eles empurraram os portões, que rangeram como máquinas velhas, e logo se viram no pátio daquele lugar sinistro.

Construções antigas e em ruínas os cercavam. Todas feitas da mesma pedra verde escura da colina. Restos mortais de criaturas e homens podiam ser vistos pelo chão, como se os crânios dos mortos os observassem. A única construção ainda inteira da fortaleza era aquela que parecia um grande templo. Ao se aproximarem deste lugar, eles sentiram a presença de um grande mal em seu interior, quase palpável. Elmara, já cansada de tanta espera, e ansiosa para cumprir sua missão, abriu logo a grande porta de madeira velha que ainda estava de pé. Um cheiro de morte e podridão logo atingiu seu rosto, um presságio do que estava por vir...


Essa história está sendo criada em uma mesa de The One Ring - Adventures over the Edge of the Wild. Cada sessão corresponde a uma parte da história, que se cria e modifica conforme todos os envolvidos decidem o que seus personagens fazem e como eles reagem.

Para ler outras partes dessa crônica ou outras crônicas, clique aqui.