domingo, 8 de julho de 2012

Crônicas da Terceira Era - Olho de Alghuir - Parte V


No momento em que a grande porta de madeira rangeu ao abrir, uma voz soou das sombras nas ruínas ao redor. Era uma voz doce, porém decidida. "Quem são vocês e o que fazem aqui?". O som via de uma das construções destruídas ao leste da grande catedral que ainda jazia de pé. Aerandir, de Mirkwood, com seus olhos afiados, viu que uma figura se escondia nas sombras, figura essa que usava uma capa feita do mesmo tecido que a sua, uma capa dos elfos da floresta.

Então, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, a doce voz se dirigiu a ele em seu idioma nativo, o sindarin. "O que fazer aqui Aerandir, filho de Erandis, com esses homens, anão e hobbit? Que missão os trouxera até essa terra amaldiçoada?". O elfo, reconheceu aquela voz, e não exitou em responder as perguntas que foram feitas. "Como sabe, sou Aerandir, da Floresta de Mirkwood, esses são meus companheiros, Klandrin, das Montanhas Solitárias, Elmara, dos nobres dúnedain, Balared, um valoroso beorning, Pêpe, um hobbit do Condado e este é o Espada Dentada, um eremita que vive aqui e nos ajudará. Estamos aqui para encontrar um objeto que devemos levar para o Mago Branco. Um artefato do Inimigo que deverá ser destruído. Agora que sabe nossos nomes e nosso propósito acho justo que se revele e fale em um idioma em que todos possam entender".

Então, das sombras da noite, é revelada a forma de uma bela elfa da Mirkwood, usando uma capa de cor verde escura, e portando uma grande lança de madeira com a ponta brilhante em forma de uma folha. Seus olhos eram negros assim como seus longos cabelos presos em diversas tranças. "Meu nome é Mikayla Finduillas, e estou aqui em uma missão sobre as ordens do Rei da Floresta, Thranduil. Estou há meses seguindo os passos de um traidor e esse rastro me levou até aqui". E isso, a elfa falou no idioma em que todos pudessem compreender, o Westron. Sabendo que ela estava sobre as ordens do Rei Thranduil, e vendo que seu coração parecia verdadeiro, a companhia propôs que Mikayla se juntasse a eles, pelo menos por enquanto. Já que ambos iriam adentrar aquela construção que parecia uma catedral sinistra.

De repente, enquanto terminavam de discutir a nova aliança ouviram o barulho de alguma coisa de metal caindo no chão, vindo de dentro da catedral. Alguém ou alguma coisa se movera lá dentro, já que o vento estava parado, como dentro de uma cripta. Nenhum outro barulho veio de lá depois disso, voltando a reinar o silêncio dos mortos. Com Klandrin segurando sua lanterna acesa, o grupo adentrou aquele lugar. A luz fez com dezenas de morcegos que viviam ali despertassem imediatamente, começassem a emitir aquele som agudo que fazem e voassem para todos os lados, fugindo da claridade. Ao mesmo tempo, ratos corriam de volta para seus buracos enquanto aquele grande grupo de pessoas adentrava o lar fétido deles. O local parecia a nave de uma igreja, com bancos compridos de madeira podre alinhados em cada um dos lados, estátuas de homens altos de armadura escura e olhar taciturno em intervalos regulares nas paredes e um grande altar ao fundo, flanqueado por duas passagens escuras, onde havia um mural pintado. A imagem era a de uma grande torre negra, com um olhos vermelho sem pálpebras.

Quando viram essa imagem, todos puderam sentir um arrepio percorrendo suas espinhas em direção aos seus corações. Aquela era a imagem do Inimigo, de Sauron, o senhor da Escuridão na Terra-Média. Como que por feitiçaria, perceberam que ao redor deles, sentados nos bancos podres e escuros de madeira da catedral, haviam seis esqueletos de homens, de armaduras e armas enferrujadas e podres. Seus olhos brilhavam com uma não vida sinistra e olhavam fixamente para o grupo, eles se levantavam.

Para cima de cada um dos aventureiros um esqueleto avançou, com suas armas erguidas, prontos para atacar. Aerandir, por alguma razão foi afetado profundamente por aquela visão da morte e do poder do Inimigo. Ele murmurou algumas palavras, amaldiçoado aquele lugar, aquela situação e o destino que os aguardava, olhou para trás e partiu, desaparecendo na escuridão e na névoa que cercava aquele lugar. A cada golpe de suas armas, a cada defesa que faziam, o grupo olhava para fora e chamava pelo companheiro, mas nenhuma resposta obtinham. Os mortos que os atacavam, no entanto, foram vencidos com certa facilidade, e quando seus ossos eram esmagados pelas armas do grupo, eles viravam pó, como se o tempo tentasse retomar aquilo que perdera a centenas de anos. De seus corpos, espíritos translúcidos de uma cor esverdeada partiam, se dirigindo ao interior da colina.

Em pouco tempo, estavam sozinhos novamente, só que, agora, sem um companheiro que os acompanharam por muito tempo. Uma comoção foi feita para que voltassem para procurar pelo elfo, mas Elmara os lembrou que se partissem dali, pode ser que não encontrassem mais a colina e a missão estaria perdida. Infelizmente, não poderiam voltar atrás, não agora. O artefato estava por perto. A única passagem que conseguiam ver eram as escadas que flanqueavam o altar maldito. Pegadas no chão empoeirado, indicaram Mikayla que seu alvo descera pela escada a esquerda do altar, e para lá a companhia foi.

A escada era estreita, gasta e com diversas rachaduras, eles desciam devagar, para evitar qualquer problema. A cada passo, o cheiro de morte e podridão ficava mais forte, como se estivessem penetrando em um mausoléu, infestado de cadáveres. Ao mesmo tempo, uma névoa estranha e gelada ia os envolvendo, tornando a visão mais turva e difícil. Até que em um momento, não conseguiam mais ver uns aos outros, apenas ouvir suas vozes escoado pelo lugar, sem saber de onde elas vinham. Na névoa sinistra, começaram a se formar imagens estranhas, de crânios, rostos de criaturas da sombras, homens encapuzados e de pessoas conhecidas em expressão de sofrimento. A poder da feitiçaria das Trevas tentava afetar o grupo naquela hora vulnerável.

Mikayla estava tentando entender aquilo que estava acontecendo ao seu redor, quando viu aquela pessoa que procurava. Sindorfin, o traídor dos elfos de Mirkwood, parado a sua frente, com seu rosto fino e nariz talhado, olhando-a com um sorriso de deboche no canto da boca. "Então você me achou, Mikayla. E agora? O que vai fazer? Você e seus amigos estão perdidos nas Sombras!". Sem esperar, um segundo, com o coração tomado pelo ódio e o desespero, a elfa segurou em sua lança e a fincou fundo no peito de Sindorfin, que arregalou os olhos de dor e surpresa.

De repente, a névoa se dissipou e a lanterna do anão, voltou a iluminar o ambiente. Estavam todos em um grande salão com dezenas de pilares quadrados feitos de mármore verde escuro. Fincado na ponta da lança de Mikayla, no entanto, não estava o elfo Sindorfin, mas o eremita, o Espada Dentada, com sangue jorrando de seu ferimento e sua boca, que murmurou uma última palavra antes de se calar para sempre: Assassina. Nesse instante, quando todos viram a cena, uma voz grave, porém graciosa, ecoou pelo lugar. "Na escuridão deste mundo, vocês tem certeza em quem podem confiar? Prossigam e cada vez mais traidores serão revelados entre vocês".

Um silêncio, então, tomou conta do local. A elfa que acabara de se juntar a eles, matara o homem da floresta que os estava ajudando. Todos sabiam da magia negra que estava em efeito sobre eles e sobre como o Inimigo pode fazer com que as mentes deles ficassem enevoadas, mas ninguém podia se contes em desconfiar as intenções da Mikayla, até que Elmara falou: "É justamente isso que o Inimigo quer de nós! Que nos viremos uns contra os outros. A feitiçaria enganou nossa nova companheira. Que isso sirva de lição para todos. Não confiem em seus olhos, pois as Trevas podem nos pregas peças. Continuemos irmãos!".

E assim, o grupo continuou sua jornada pela aquela masmorra sombria e labiríntica. Corredores após corredores, salas, salões e becos sem saídas. Então, de repente, Balared parou. A sua frente via aquela pessoa que jurara defender e proteger, ferida, quase morta, com um olhar de ódio depositado sobre ele. Era Elmara, a dúnedan do norte, que o culpava por ter falhado em sua missão. Aquilo encheu seu coração de dor e angústia. A dúnedan sacou sua espada longa e o atacou, sem saber o que fazer, o beorning não se defendeu, e foi ferido no ombro. Mas então, ele se lembrou de onde estava. Ainda não falhara, ainda haviam chances de conseguirem sair de lá. Elmara ainda estava viva, e com um urro, como de um urso, ele a empurrou para longe. Era apenas a magia dos Inimigo envolvendo sua mente e seu coração. Ele viu o que pode acontecer caso falhe. Tomado pelo ódio e desespero, Balared sacou seu machado e saiu correndo, gritando, para o interior da Escuridão. Seus companheiros não sabiam o que fazer, e o seguiram, como puderam.

Correram por muito tempo, talvez horas, talvez dias, não tinham como saber naquela escuridão, mas uma hora se cansaram. Não faziam ideia de onde estavam ou para onde deveriam ir. Se encontravam em uma sala redonda com um fonte de água seca no meio. Sentado em seu parapeito, Elmara viu Robin Ropper, seu antigo companheiro de viajem. Em seus olhos, uma expressão de desespero, de medo, de horror. "Você não me protegeu da Escuridão, Elmara. Eu era um hobbit esperançoso e aventureiro, e você permitiu que as sombras matassem esse meu espírito de aventuras. Eu te odeio por isso, te odeio"! E o pequeno saltou com uma adaga em punho para finca-la no peito da dúnedan. Mas não foi dor que ela sentiu com o ataque, mas o frio toque das Sombras e a lembrança de que já perdera muitos companheiros em sua vida voltou a atormentá-la. Uma lagrima escorreu de seus olhos, mas quando levantou o rosto novamente, não havia ninguém lá a não ser os seus atuais companheiros. Quem quer que estivesse fazendo aquilo com eles, sabia exatamente os medos e os receios de cada um.

Sem saber para onde ir, só restava vagar por aqueles corredores e escadarias e torcer para que a luz das estrelas, de alguma forma os guiasse. Enquanto caminhavam, sem rumo, passaram por um corredor que parecia ser um calabouço. Diversas celas, uma do lado da outra. Por entre as barras de ferro, Klandrin viu um anão preso a duas grossas correntes. Ao olhar mais atentamente, o anão levantou a cabeça e Klandrin viu quer era seu grande amigo, Drarin. Klandrin, logo abriu a porta da prisão com seu machado e correu para acudir o amigo. Mas esse não queria ajuda. A primeira coisa que fez foi acusá-lo, dizendo que foi por culpa de Klandrin que ele morrera, por culpa de seu abandono do grupo na Batalha de Faerel. Embora Klandrin, já tenha pensado nisso, e aquelas palavras lhe causassem um pesar tremendo, ele sabia que seu amigo jamais o culparia por aquilo. Ele segurou firme em seu grande machado e com um grito de ódio esmagou a imagem de Drarin, que se desfez em fumaça imediatamente. Ninguém tinha visto exatamente o que acontecera, mas viram o olhar distante de Klandrin e sabiam que a magia da Escuridão o envolvera também, ainda que por apenas alguns minutos.

Talvez por sorte, ou por obra do destino, enquanto caminhavam por aquele emaranhado de salas e corredores, avistaram, novamente, o rastro de algum homem ou criatura. Assim, seguiram por um caminho sinuoso, e estreito, através de corredores, escadas e salas estranhas, até que chegaram a um pequeno aposento com uma estátua de um homem encapuzado vestindo uma armadura completa de batalha. A estátua estava deslocado para a esquerda, e onde ela deveria estar havia uma escada para baixo. Subindo as escadas, Pêpe Lingua-Afiada viu seu irmão, aquele que arruinara a sua vida, que roubara seu amor e que lhe humilhou na frente de toda a família. "É Pêpe, você está sempre fugindo, sempre se escondendo, nunca enfrentando aquilo que está a sua frente não é? Mas dessa vez, você não tem como fugir!". E o hobbit saca uma adaga e começa a se aproximar de Pêpe. Esse, por sua vez, diz "Dessa vez não, irmão. Dessa vez não!" e salta para encontrar seu rival. Com aquele ato de coragem e determinação, a imagem de seu irmão desapareceu, mas o ódio e a raiva, no coração do hobbit, ficaram.

A frente da companhia, a escada descia pela escuridão. Dela podiam ouvir o som de uma criatura gigantesca, roncando. Ao fundo, a melodia terrível de uma música ou canção no idioma negro de Mordor. Receosos do que poderiam encontrar lá embaixo, Pêpe e Mikayla iriam descer na frente, silenciosamente, para averiguar quem, ou o quê, estava lá.

Eles foram descendo pelas escada, uma passagem estreita, de paredes lisas e depois de alguns minutos, começaram a enxergar uma luz esverdeada vindo de baixo. Ao chegarem ao fim das escadas eles se viram em um enorme salão redondo, com um poço enorme no meio por onde se estendia uma ponte com um altar em seu centro. Nesse lugar estava Sindorfim, usando um manto escuro com diversos símbolos estranhos costurados com um fio prateado. Em suas mão erguidas, uma grossa corrente de um metal escuro lançava essa luz esverdeada que tinham visto. Era o elfo que entoava a canção hedionda no idioma de Mordor, provavelmente na execução de um ritual. Sem pensar muito, Pêpe sacou sua espada e foi se esgueirando até ficar atrás do elfo traidor, e, aproveitando a oportunidade, encravou-a em suas costas.

"Arrgh!" gritou Sindorfin, enquanto se virava para ver quem o atacara, o sangue nobre do elfo escorrendo por suas costas. Ao ouvirem o grito, Balared, Klandrin e Elmara desceram correndo as escadas. Ao chegarem no aposento, viram o elfo traidor sacando sua espada fina e curvada para atacar o hobbit, Mikayla correndo com sua lança em mãos para saltar sobre Sindorfin e, do grande poço escuro que os cercavam, grossos tentáculos espinhosos surgindo e se contorcendo. Eram da criatura que ouviram o ronco.

O primeiro ao alcançar Sindorfin fora Kladrin que usou a fúria do seu ataque e o peso dos anões para empurrar o elfo para o poço. Com um ferimento de machado em seu torço, ele caiu e desapareceu nas sombras enquanto seu grito ia ficando cada vez mais baixo. Então, a besta se agitou, e os tentáculos que estavam lá começaram a tentar agarrar a todos. Mikayla logo pegou a corrente escura que o elfo segurava. Ela estava gelada e com um toque sentiu uma poderosa força que residia nela, como se ela pudesse dominar a todos ali, pois, imediatamente, conhecia os medos de cada um.

Elmara fora agarrada por um dos tentáculos e estava sendo arrastada para o poço. Ao seu lado, Balared golpeava aquele membro que a segurava com seu machado, tentando soltá-la. Um grunhido amedrontador foi ouvido, ecoando por toda aquele local e o chão começou a tremer. O que quer que estivesse no fundo do poço estava querendo sair.

Essa história está sendo criada em uma mesa de The One Ring - Adventures over the Edge of the Wild. Cada sessão corresponde a uma parte da história, que se cria e modifica conforme todos os envolvidos decidem o que seus personagens fazem e como eles reagem.

Para ler outras partes dessa crônica ou outras crônicas, clique aqui.