segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

RPG combina com... TODO MUNDO!

Eu sei. Esse aqui é um blog focado em conteúdo para RPG. Sempre me preocupei em publicar resenhas, reportes de jogo, dicas para mestres e jogadores, material para ser usado na mesa, reflexões sobre a natureza e a atividade do nosso hobby mas, às vezes, é importante falar de coisas como comportamento e sociedade, algo inerente ao RPG, já que este é um jogo social, que forma caráter, que faz parte de nosso crescimento como pessoa, mesmo sendo "apenas um jogo".

O assunto da semana tem sido o Sexismo no RPG e ele se evidenciou depois de uma página (e depois outras a acompanharam compartilhando o conteúdo que foi "SPAMado" em quase todas as comunidades de RPG no Facebook - na OSR Brasil não foi porque já tinha banido os manés que fazem SPAM da tal página há bastante tempo) publicou uma imagem de um decote feminino, com seis avantajados e um cordão no formato de um d20. Até aí, nada demais certo? Não sei, mas a coisa piora muito se prestarmos atenção no contexto e na frase com que a imagem foi compartilhada.

Antes de mais nada, o problema não está no fato da imagem existir, no fato de mulheres usarem decote, no fato de pessoas se sentirem atraídas por seis, nem nada do tipo. É o conjunto de fatores, a forma como a imagem foi usada e a ampla massificação dela no intuito de chamar atenção. A imagem foi divulgada com o simples dizer "Quem disse que mulheres e RPG não combinam?". Ou seja, a representação da mulher no cenário RPGístico que eles escolheram foi um par de seios. Você não via o rosto da mulher, você não via ela fazendo nada. Ela não estava jogando, ela estava ali, apenas com seus seios parada, como um enfeite. O pessoal do Livro dos Espelhos juntou várias mulheres e fez uma ótima postagem, que está perfeita e bastante clara, sobre o ocorrido e o porque que aquilo é ruim para o hobby como um todo. Por favor, se você não leu ainda, vai lá ler. Nós esperamos.

Já leu, pois bem. Vamos continuar. Esse foi apenas uma das diversas respostas e manifestações contrárias a essas postagens e a todos os comentários que a apoiavam. Pérolas como "RPG é coisa de homem e homem gosta de peito, qual o problema?", combinadas como "Mulher não gosta de RPG, elas preferem fazer coisas de meninas". Isso tudo sempre saindo da boca (ou dos dedos) de pessoas que afirmam que machismo no RPG não existe, e as mulheres que estavam reclamando da postagem eram recalcadas e invejosas porque não tinham seios daquele tamanho e os homens que reclamavam eram gays. Pois é. Isso porque não existe machismo no RPG.

Existe não só machismo, mas toda forma de preconceito possível e imaginável, cometido por quase todo mundo, ainda que sem intenção ou inconscientemente. Eu mesmo tenho que me policiar para não falar besteira e ser preconceituoso. Preconceito é inerente na nossa sociedade, na maneira como somos criados. O simples fato de sacanearmos alguém falando que ele é mulherzinha, já demonstra um preconceito, um machismo. Desde quando ser mulher é ruim, é algo digno de zoação? Quando falam que elfo é tudo "gay", como se estivessem tentando desmoralizar um tipo de personagem, isso é homofobia sim. Ser gay é xingamento? Ser homossexual é motivo de riso? Quando falam que tudo que é nerd é gordo e tetudo? Isso é outra forma de preconceito. Cada piadinha dessa deixa essas pessoas incomodadas, quer você tenha a intenção ou não, quer todas se incomodem ou não. Basta uma pessoa, uma sequer, e você está prejudicando o hobby a crescer.

Não importa que você não tenha presenciado uma ocorrência dessa e você ache que são casos isolados. Mesmo sendo, não é importante lutar contra e falar sobre o assunto para que não ocorra com outras pessoas? As dezenas de mulheres que relatam coisas que aconteceram nas mesas de jogo estão inventando tudo isso para chamar atenção? O que eu presenciei minha mulher passando e o que ela me contou que já aconteceu na mesa com ela jogando eu devo assumir que é imaginação fértil apenas? Não.

Não importa se é problema de 1, 2 ou 500 mil pessoas. É um problema. Precisamos falar sobre ele. Precisamos conversar para que as pessoas tenham consciência do que isso, apesar de ser "normal" como muita gente fala, não é certo e aceitável. E não, como alguém disse tentando defender que era normal, não é só as mulheres que passam por isso. Claro que não (apesar delas sofrerem isso com maior frequência e mais facilmente). Todo mundo passa. Seja porque é mais gordinho, mais magrinho, tem uma cara diferente, tem uma orientação sexual diferente, se veste de maneira não usual ou, sei lá, qualquer coisa. Todo mundo sofre preconceito, sim. Mas isso não é motivo para não vociferarmos contra um tipo de preconceito específico. Não é porque todo mundo sofre (embora algumas pessoas sofram muito mais do que as outras) que devemos aceitar como sendo algo normal, aceitável.

RPG não é algo de um público algo específico como algumas pessoas querem passar. Não é coisa de menino, nem coisa de menina. É coisa de TODO MUNDO. É coisa de ser humano. É natural da gente querer imaginar outros mundos, viver outras vidas, contar histórias, dividir experiências. Sendo o RPG um jogo social, nada mais natural do que transformar isso numa brincadeira e conhecer pessoas novas com isso. Mas temos que ter consciência que mesmo sendo uma brincadeira o RPG tem um poder muito grande na formação de pessoas e, se permitirmos que esses comportamentos preconceituosos continuem, estamos excluindo muitas pessoas dessa possibilidade. Se continuarmos a fechar os olhos e a tratar isso como besteira, estamos é reforçando essa mensagem.

Não é questão de simplesmente falar "então não jogo com quem não conhece", "se está insatisfeito, monte o seu próprio grupo". E a pessoa que não conhece o jogo, quer conhecer pessoas que joguem e vai a um encontro e o primeiro contato que tem com o hobby é em uma situação de preconceito? Azar o dela, é isso? Não pode ser assim. Não devemos aceitar isso como normal e achar que a pessoas não tem nada do que reclamar. Isso dá a entender que as pessoas não podem ir a encontros de RPG e esperar ser bem tratadas e jogar em paz. Se elas sairem de casa para jogar com estranhos, ela tem que aceitar se ofendida e constrangida mesmo, porque isso é "normal"! Em que mundo vivemos?

Enfim, estou divagando, eu sei. Mas eu precisava escrever algo por aqui. Algo dessa importância para mim e para todo mundo, como eu acredito, merecia uma postagem e um desabafo. Quem esperava conteúdo de jogo, vai ter que aguardar mais um dia. É um mal necessário. Temos que falar sobre isso.

Ah, sim, vou logo avisando. Eu adoro debater sobre jogos e ideias, mas certas coisas, para mim, são indescutíveis. Como o assunto de hoje. Machismo, preconceito, inclusividade. Aqui não é uma democracia quanto a isso. É uma democracia quando é algo que não prejudique, ofenda ou reprima ninguém, mas não aceito o argumento de quem quer defender o direito das pessoas de ofenderem, incomodarem e objetivarem alguém. Isso não. Ou seja, não adianta comentar aqui falando que é bobagem, que não existe, que eu estou sendo radical ou qualquer coisa do tipo. Esses comentários serem apagados e a pessoa bloqueada. Simples assim. Me chamem de radical, eu sou mesmo, principalmente quando se diz em defender um espaço mais receptivo para TODAS as pessoas.

É isso, por enquanto. Esse assunto não vai morrer tão cedo. Mas depois de ler tantas coisas absurdas, devo ter falhado em vários testes de sanidade. Chego a sentir vontade de sumir do hobby. E olha que eu quase não sofro com essas coisas, imagina quem sente na pele. A última que li agora é que machismo não existe nem em ambiente de trabalho. Se a pessoa aceita um emprego ela tem que se sujeitar ao chefe mesmo, se ela não quiser que vá embora e peça demissão. Pois é. Só me resta chorar e torcer para que essa pessoa tenha um chefe bem legal, para não dizer o contrário.

Se você gostou da postagem, visite a página do Pontos de Experiência no Facebook e clique em curtir. Você pode seguir o blog no Twitter também no @diogoxp.