sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Impressões - O Reino de Bundhamidão - Fantasia Medieval Escrachada

Há poucas semanas a galera gente finíssima da Editora Retropunk distribuiu à alguns blogs uma cópia em PDF da versão rascunho do Reino de Bundhamidão, um RPG satírico que eles devem lançar na RPGCon deste ano. Eu fui um dos felizardos contemplados com uma cópia e li o livro todo em alguns dias, assim que tive tempo. Se tem alguma palavra que eu usaria para resumir o espírito de jogo, é "escracho". Mas não no sentido de estar mal feito, tosco, porco, mas sim porque o jogo pega tudo que é esperado de um cenário típico de fantasia medieval, mistura num liquidificador, tira tudo o lugar e joga na panela. Está tudo lá, mas está tudo mudado, trocado e, principalmente, zoado.

Não espere um jogo sério sobre nobres aventureiros que enfrentam perigos para ajudar o reino e seus habitantes a se livrarem de dragões, vampiros e outras ameaças. No Reino de Bundhamidão é cada um por si e os loucos Deuses por si só também. As pessoas são, de maneira geral, egoístas, preocupadas apenas com seus próprios interesses, sem querer enxergar o que acontece além dos limites de sua visão. É um jogo em que os jogadores, provavelmente, não serão heróis, mais aventureiros inescrupulosos a fim de ganhar sempre o máximo com o mínimo de esforço, de preferência causando muita confusão.

O Reino de Bundhamidão é um jogo completo, com cenário e regras próprios, que se complementam muito bem. Há diversos aspectos nas regras do jogo que reforçam o humor do cenário e favorecem a criação de situações absurdas e engraçadas durante a sessão de jogo. O cenário é apenas um único reino, mas isso não parece limitar nem um pouco o jogo, já que esse reino é tão variado e extenso que qualquer coisa pode ser encontrada nele.

O mundo do Reino de Bundhamidão, pelo que os sábios e loucos dizem, era um mundo normal de fantasia medieval, cheio de clichês e mesmices, como elfos sábios, belos e afeminados vivendo em reinos escondidos na floresta, anões carrancudos, barbudos e rabugentos forjando armas e armaduras debaixo de grandes montanhas (guerreando contra orcs e gigantes sempre que podia, sem saber direito por quê), dragões no fundo de grandes masmorras, esperando o dia em que um grupo de aventureiros chegaria ao vigésimo nível para, finalmente, confronta-lo, e tantas outras coisas. No entanto, algo mudou esse mundo para sempre. Um arcanista antiga, do qual ninguém tem lembranças exatas, criou uma raça hibrida de homens e burros, ensinando-os a falar, ler, escrever e os tornando uma raça inteligente. O próximo passo foi introduzi-los às ciências mágicas, à religião e outras esferas. Sendo uma raça muito determinada e nova, eles aprenderam tudo rápido, mas simplificavam tudo e, usando todo o conhecimento que adquiriram mas sem pensar nas consequências de seus atos. Eles ficaram conhecidos como Energúmenos e, com o tempo, começaram a tomar o controle de todo o mundo, para o desespero das outras raças, que seu uniram para impedir que esses seres irresponsáveis o destruísse. Mas algo aconteceu, mudando o mundo completamente. O "Desastre Desconhecido" aconteceu e acabou com o mundo da forma como ele era conhecido, fazendo surgir, das cinzas, o Reino de Dundhamidão.

Esse Reino é todo o mundo conhecido, se é que há algo para se conhecer além dele. Nas suas fronteiras estão todos os seres fantásticos e não tão fantásticos, convivendo sobre a tutela de três reis que dividem o reino em três distritos, um no leste, outro no oeste e um no sul (por alguma razão, o norte é uma direção desconhecida em Bundhamidão). Cada um dos distritos possui características próprias, com raças predominantes e figuras e locais mais conhecidos. As raças de personagem não são como as lembramos dos jogos de fantasia tradicionais, elas são modificadas de forma a se tornarem quase irreconhecíveis. Os elfos, nobres, altivos e sábios, se tornaram escravos afeminados que trabalham em lavouras sobre o domínio das Fardas, que são uma fadas guerreiras e valentonas. Os halflings, coitados, ficaram loucos, largaram suas vidas pacatas nas suas tocas das colinas e se tornaram canibais insanos. Ao mesmo tempo, os selvagens meio-orcs, cansaram de uma vida barbara e foram viver nas colinas dos halflings, se tornando o povo mais pacato de Bundhamidão. Há ainda. além das raças clássicas de fantasia, como raças de personagens, os meio-energúmenos (meio homens, meio burros, fortes mas pouco inteligêntes), os troll-has, uma raça de troll semi-civilizada, os bullies do reino; as fardas, fadas rebeldes e guerreiras; e os goblins, nossos conhecidos de sempre, se metendo em confusões e trapaceando por aí.

O sistema de criação de personagens é através de distribuição de pontos, chamados Pontos Descritivos. Esses pontos são usados para comprar Atributos, Perícias, Peculiaridades, e Outras características. Há também os chamados Pontos Descritivos Negativos, que são usados para compras uma peculiaridades negativas, dando características toscas e engraçadas para seu personagem. Uma das sacadas legais do jogo é que, ao mesmo tempo que seu personagem evolui, se tornando melhor em algumas coisas, ele vai ficando pior em outros, adquirindo desvantagens, peculiaridades e defeitos que o vão tornando cada vez mais... Bundhamidense (não há adjetivo melhor para descrever isso). O jogo utiliza apenas dados de seis faces, e sempre é necessário tirar resultados maiores. Os atributos na ficha do personagem, chamados de traços de personalidade, não são medidos em números, mas em prefixos e sufixos (o primeiro dando mais dados e o segundo bônus numéricos. Assim e se o cara tiver o traço de personalidade ofensivo como Super-Mega Brutalíssmo ele ganha +2d6+6 nos testes de traço ofensivo.

Já as perícias são graduados com advérbios, como Nadar como um Pedra (não saber nadar), Escapar pra Caramba (que dá mais três dados no teste). As peculiaridades são como vantagens de outros jogos e modificam parte das regras do jogo para seu personagem e elas são tão variadas e loucas como se esperaria desse jogo, como a "Embromation" que permite que você fale uma língua que apenas personagens com a mesma peculiaridade entendem. Há ainda algumas condições (outras características do personagem), como Determinação (Uma espécie de Pontos de Vida psicológicos), Vitalidade (que é basicamente os Pontos de Vida), Estupidez (sim, o quão estúpido é seu personagem e quão absurdas são as coisas que ele faz), e Macheza (o quão valentão ele é). Aliás, uma das maneira de ganhar mais estupidez é utilizando Descritivos Absurdos, que são na verdade momentos de narrativa compartilhada que podem ser usados pelos jogadores para que eles consigam qualquer coisa, desde que narrem como aquilo acontece de forma divertida, engraçada e absurda. Dependendo de como ele fizer isso ele pode ganhar pontos de Estupidez ou mesmo Pontos Descritivos para ele gastar evoluindo seu personagem.

As regras do jogo não são complexas, mas como são apresentadas de uma maneira um pouco diferente, com advérbios, sufixos, prefixos e outras coisas um tanto divertidas, pode demorar um tempo para se acostumar e se familiarizar, mas no fundo basta jogar alguns dados e ver se o resultado foi alto o suficiente. O sistema de distribuição de pontos e evolução misturado com involução ao mesmo tempo dão um ar diferente e ao jogo, tornando-o bastante customizável.

O cenário do jogo é bem desenvolvido e apresentado no livro, com localidades, personalidades e curiosidades a serem exploradas. Ao mesmo tempo, ele é bem aberto, sendo possível encaixar qualquer coisa que você queira nele, nem mesmo se limitando a aspectos da fantasia medieval. Há vários elementos de outros tempos no jogo, tecnologia moderna, que no mundo é encarado como algo mágico e sem explicação. O autor faz uso constante de trocadilhos e piadas com nomes conhecidos, modificando-os para se adaptar ao mundo, como, por exemplo, o Distrito Condado Devint-Lhados, as Gel'Adeiras, a deusa sacana Hotty-Free XXX e outras coisas.

Este é um RPG para quem quer se distrair com um jogo engraçado, descompromissado, sem se preocupar muito com consistência, grandes enredos e gosta de um pouco de comédia e absurdo na mesa. Ele me lembra bastante um jogo satírico de cartas conhecido, o Munchkin, que aliás está saindo pela Galápagos Jogos aqui no Brasil. A versão que eu recebi não possuía imagem nenhuma, por isso mal posso esperar para ver esse jogo pronto e com ilustrações mapas e outras coisas. A Retropunk, como de costume, esta de parabéns. Mas um jogo para animar as mesas de todo nós.

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